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20/03/2007 10:38

ONDE ESTÁ A HUMANIZAÇÃO


Veja o desabafo da nossa amiga Priscilla

UNICAMP, 17/03/07. Mutirão de catarata. A normalização do descuido.


Quando falamos em HUMANIZAÇÃO no sistema de saúde, qual o limite do tolerável? Hoje pela manhã, fui ver de perto a realização do Mutirão de Catarata. É improvável que algum de nós não tenha ouvido falar dos famigerados MUTIRÕES do Estado. Muitos, inclusive, fazemos críticas sobre como eles são realizados sem prezar pelo cuidado com quem está aguardando, com grandes filas e, pasmem!, com capitalização política por parte de alguns grupos que REALMENTE acham que ação de saúde pública tem de ser feita ‘assim’.
É sobre este ‘assim’ que quero falar, pois esses MUTIRÕES continuam existindo e é o sentimento de indignação que me leva a pedir que olhemos e nos indignemos com esta realidade.
O público-alvo da campanha é de pessoas maiores de 50 anos com acuidade visual menor que 0,5. É quase redundante deduzir que são pessoas com mais limitações físicas para enfrentar filas, seja pela idade, seja por estarem com sua visão limitada. Mas é exatamente a redundância que incomoda.
A campanha é feita pelo menos 01 vez a cada ano, e da organização participam estudantes, médicos, residentes ou não, além de soldados do exército. Perguntei a um destes soldados o que estava achando da ação e senti dele uma sincera vontade de ajudar. Ele, junto a outros poucos, dispuseram-se a passar seu sábado dando uma ‘contribuição solidária’. Foi o mesmo que senti de uma estudante, que realizava os testes de acuidade visual, numa das várias ‘etapas’ pelas quais os pacientes tinham de passar, em gigantescas filas, para conseguir a marcação da sua cirurgia de catarata, se fosse realmente constatado que essa seria a indicação médica.
Indignei-me, e continuo assim, com a normalidade da desumanização que admite que usuários e futuros médicos aceitem, convivam e repitam a experiência de deixar na fila centenas de idosos aguardando, sem perspectiva de quando e se serão atendidos. Muitos deles, depois de terem iniciado o atendimento, foram orientados a retornar numa outra data para concluir o atendimento, devido ao adiantar da hora. Isso, às 16h. Ressalto que o MUTIRÃO foi programado para acontecer das 8 às 14h. Foi assim que vários municípios da região se organizaram, e centenas de usuários saíram de casa cedinho informados que o dia poderia ser longo.
Em suma, gostaria de partilhar com o maior número de pessoas possível o seguinte: já temos condições de tratar diferente essas campanhas, que no começo do século passado eram ‘eficientes’. Com a municipalização, o financiamento da saúde precisa ser revisto e gostaria de ter eco para algumas perguntas: se essas verbas que vêm esporadicamente para MUTIRÕES viessem rotineiramente, haveria justificativa para reprezar filas? De que depende a mudança na forma de priorizar o uso do recurso público por parte da Secretaria Estadual de Saúde?
De uma coisa não tenho dúvida: há outras estratégias já experimentadas para organizar campanhas. Podemos agendar as cidades, marcar dias distintos, prever número de pacientes atendidos, podemos municipalizar esses mutirões...enfim, só não podemos ter preguiça de pensar. Não podemos deixar de nos indignar com o destrato com as pessoas. Não podemos admitir que se repita o financiamento de ações que permitam deixar idosos com dificuldade de enxergar sob o sol em uma fila de mais de 8h dentro de uma instituição formadora de profissionais de saúde!
Ao debate, gostaria de convidar a todos para nos organizarmos com sugestões sobre como impedir que ações coletivas como a de hoje se repitam. Em defesa da vida, seguem alguns registros fotográficos que a Wanice vai disponibilizar para a rede do que espero que entre definitivamente na página do passado!

Priscilla Batista

enviada por JUNIOR SAÚDE





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